exame/economia
http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0953/economia/leviata-quer-mais-501953.html?page=1
O Leviatã quer mais
No Brasil e lá fora, a moda é apoiar o avanço do Estado em esferas cada vez mais abrangentes de atuação. É assim o mundo pós-crise financeira -- mas convém avaliar com cuidado o que o gigante de fato sabe fazer
De todos os mercados do mundo, talvez nenhum tenha sido mais afetado pela crise financeira global do que o das ideias econômicas. Na disputa por corações e mentes, a indiscutível liderança do liberalismo americano e inglês, mantida durante décadas de prosperidade e sucesso, despedaçou-se em meio a pacotes de socorro bilionários para um empresariado de pires na mão. A versão chinesa do capitalismo, por sua vez, vem galgando posições e hoje atrai a atenção dos órfãos de um modelo de desenvolvimento graças à sua peculiar mistura de mercado livre com Estado forte -- quem há de discordar que, pelo menos por enquanto, essa receita tem funcionado impressionantemente bem? Até mesmo a velha Europa parece mais disposta a mostrar suas virtudes. Economistas respeitados, como o americano Jeffrey Sachs, agora cultuam o modelo econômico nórdico e seu Estado de bem-estar social, uma espécie de paraíso na Terra por muito tempo considerado bom (e caro) demais para ser real. O mundo mudou muito nos últimos meses e é possível que mude ainda mais nos próximos. Vários pensadores têm ressaltado que não há um único caminho para o sucesso, como advogavam os defensores do Consenso de Washington. Na ânsia por respostas aos desafios do futuro, cada vez menos gente tem buscado os ensinamentos dos manuais clássicos de economia. A confiança na sabedoria intrínseca dos mercados despenca na mesma medida em que sobe o interesse por soluções de Estado aos conflitos inerentes da vida social.
No Brasil, não andam em falta louvações ao planejamento central. A crise internacional deu munição aos adeptos dessa visão, que agora se sentem livres para cometer seus exageros. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a oportunidade e cunhou várias frases típicas de seu estilo polêmico. Logo após a quebra do banco americano Lehman Brothers, numa viagem a Cuba, Lula se entusiasmou com a companhia do presidente Raúl Castro e proclamou: "Na crise, percebemos que o mercado é como se fosse um ovo sem gema, ou seja, vazio. Quem é que corre para socorrer o mercado? Exatamente o Estado, que não valia nada, que atrapalhava". Uma das joias de seu discurso de maior repercussão internacional foi a que identificou os culpados pelo abalo nas finanças globais. "É uma crise causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis que antes da crise parecia que sabia tudo e que agora demonstra não saber nada", disse Lula no final de março, em Brasília, durante uma visita do premiê britânico, Gordon Brown. Para a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, a ocasião tem sido de rebater críticas aos gastos do governo e defender com mais veemência sua proposta de rumo para o país. "O que se viu no mundo nos últimos tempos é que a tese do Estado mínimo é uma tese falida, ninguém aplica, só os tupiniquins. Nós somos extremamente a favor do Estado que induz o crescimento, o desenvolvimento, que planeja", declarou em entrevista recente. Já é nítido o avanço do Estado "indutor de crescimento", como definiu a ministra. As agências reguladoras, paulatinamente nos últimos anos, perderam sua autonomia original e seu caráter técnico. Ao mesmo tempo, o governo deu impulso à maior presença de estatais na economia. No setor financeiro, há uma atuação no crédito mais agressiva que os bancos privados, especialmente agora que o Banco do Brasil foi reforçado com a incorporação da paulista Nossa Caixa. No petróleo, as propostas apresentadas para a exploração do pré-sal incluem a criação de uma nova estatal, a Petro-Sal, e mais espaço para a já existente, a Petrobras. Setores como os de energia, mineração e telecomunicações estão também na mira do governo.
Encontrar o melhor equilíbrio entre as forças do mercado e as do Estado tem sido um desafio recorrente das sociedades modernas. A própria história do capitalismo pode ser vista sob o prisma de uma busca por essa resposta, alternando fases de maior com menor intervenção. Por isso, antes de guinadas bruscas à esquerda, não é má ideia olhar a experiência acumulada ao longo das décadas. E aí convém separar alguns debates distintos que atualmente se encontram sob o manto das críticas genéricas ao liberalismo. Uma primeira discussão, particularmente importante nos dias atuais, é sobre a capacidade do Estado de regular a ação do setor privado. Hoje é evidente que as autoridades americanas e europeias não viram -- ou não quiseram ver -- o castelo de cartas que se criou a partir do sistema financeiro. O curioso é que a teoria econômica tradicional há muito incorporou a noção de que vários mercados só podem funcionar com uma regulação forte. O conceito-chave nesse campo é o de falha de mercado. Um exemplo clássico de falha de mercado é quando duas pessoas se envolvem em uma transação, mas uma delas conhece muito melhor o bem a ser negociado. Foi o que ocorreu na crise americana: os bancos repassaram a seus clientes instrumentos financeiros arriscados, vendidos como se fossem seguros. Como só o banco conhecia o risco dos papéis, seria preciso um regulador para impedir que o cliente fosse enganado e para limitar a alavancagem bancária. Foi exatamente o que fez o Banco Central brasileiro. Estranhamente, as correntes mais animadas em defender o Estado por aqui atacam o BC e outras agências criadas para regular o mercado.
Ao lado das discussões sobre a melhor forma de regular o mercado, há outra controvérsia, totalmente diferente, que diz respeito à capacidade do Estado em ajudar a economia a reerguer-se em momentos de crise. Não se trata de um debate novo -- ele foi inaugurado pelo economista inglês John Maynard Keynes nos anos 30, no auge da Grande Depressão. Após um período de baixa na academia, os princípios keynesianos voltaram com força, embora em bases novas. Hoje, a maioria aceita que, tanto na política monetária como na política fiscal, o governo tem um papel importante de atenuar os períodos de crise com as chamadas ações anticíclicas. No front monetário, o consenso é grande -- nos últimos 15 anos, inúmeros bancos centrais adotaram políticas de metas de inflação e vêm conseguindo usar os juros para evitar flutuações bruscas de atividade. A discussão teórica que persiste é técnica e diz respeito a pequenos aperfeiçoamentos nas fórmulas das metas.
A política monetária, porém, tem limites. No momento, muitos países estão praticamente com juro real nulo. Por isso os olhos se voltam para a outra perna clássica da política econômica, a fiscal. Nesse terreno, há mais discordância. Mas a ala keynesiana tem avançado, mostrando que uma política bem planejada pode ser efetiva num momento de retração. Vários trabalhos acadêmicos, porém, sugerem que a forma como esse estímulo se materializa faz diferença. Cortes de impostos parecem funcionar melhor do que aumentos de gastos. Um bom exemplo são os resultados obtidos pelo governo brasileiro com a redução do IPI de carros, promovida desde dezembro para estimular o consumidor a comprar e combater o desânimo com a crise. De acordo com um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o alívio gerou aumento de 13,4% nas vendas domésticas de automóveis no primeiro semestre deste ano. A medida também teria contribuído para preservar pelo menos 50 000 empregos no setor.
Se a opção for aumentar gastos, e não cortar impostos, é importante que a nova despesa seja de fato temporária. Gastos permanentes mais altos terão, mais dia, menos dia, de ser compensados por aumentos de impostos. E eles violam a própria noção de ação anticíclica -- que, por definição, tem prazo para terminar. Idealmente, uma boa intervenção se concentra em áreas que possam elevar a competitividade da economia, um jeito de fazer do limão a limonada. É o que faz a China neste momento. Quando a crise irrompeu, os dirigentes chineses se apressaram para anunciar um pacote econômico de 586 bilhões de dólares. Nada menos que 264 bilhões de dólares foram direcionados para obras de infraestrutura, especialmente no setor de transportes. É um contraste marcante com o Brasil. Anúncios do PAC à parte, há muito pouco de concreto em andamento por aqui. Os investimentos do governo federal em infraestrutura são de apenas 0,36% do PIB. O Estado também faz pouco em termos de gastos em pesquisa, outra atuação que tende a gerar uma economia mais produtiva no futuro. A escolha tem sido contratar mais funcionários -- foram adicionados 201 000 entre 2002 e 2008 -- e recompensá-los com salários mais altos. "O governo está aproveitando a crise para retomar uma agenda do passado", diz o economista Samuel Pessoa, da Fundação Getulio Vargas. "Ela inclui mais funcionários e um papel muito mais forte dos bancos públicos e do BNDES."
Historicamente, o Estado como conhecemos é uma criação recente. Alguns de seus principais teóricos -- Thomas Hobbes, autor de O Leviatã, e Jean-Jacques Rousseau, de O Contrato Social, para citar dois -- perceberam a força das transformações na Europa moderna com o surgimento de potências de âmbito nacional. Cunharam a noção do contrato social, uma espécie de acordo em que os cidadãos abrem mão de certos poderes para ganhar em harmonia e civilidade. O uso da violência física, por exemplo, tornou-se exclusividade do ente estatal, já que a alternativa era a "barbárie". A partir daí, o desafio passou a ser estabelecer os limites da ação estatal e incorporar a cidadania política -- os tristes exemplos da Alemanha nazista e da União Soviética servem de alerta para os riscos da opressão da máquina do Estado. No terreno político, o Brasil escapou desses extremos. Mas, na economia, foi um dos mais entusiasmados praticantes do nacional-desenvolvimentismo. A visão era que só poderia haver crescimento sob a tutela do Estado, à base de muita proteção e subsídio. Hoje, um balanço das décadas de 50 a 70 mostra que a expansão ocorrida não saiu barato. Por um lado, as estatais drenaram bilhões de reais, que tiveram de ser pagos por toda a sociedade -- só em seis casos levantados por EXAME, como o da RFFSA, a conta repassada ao contribuinte foi de 55 bilhões de reais. É dinheiro que não foi para a saúde nem para a educação.
É o que leva muita gente a propor uma atenção redobrada nas áreas clássicas da atuação estatal -- saúde e educação. Pode ser uma concepção menos ambiciosa, mas, paradoxalmente, é a forma mais radical de transformar a vida dos brasileiros. No caso de Luiza Adão da Costa, de 29 anos, algumas das políticas públicas têm sido fundamentais na mudança de rumo de uma história marcada pelo sofrimento. Luiza, paranaense que vive em Jundiaí, no interior de São Paulo, há 22 anos, protagonizou alguns dos problemas comuns a boa parte dos jovens brasileiros. Estudou apenas até a 4a série do ensino fundamental e teve o primeiro filho aos 15 anos. A gravidez precoce e a baixa escolaridade desembocaram numa condição de trabalho precária e, há sete anos, Luiza perdeu a guarda dos quatro filhos por não ter condições de criá-los. Morava na favela Xangai, espremida entre um córrego e um viaduto e famosa pela violência. Atualmente, mora em um conjunto habitacional na periferia de Jundiaí com o companheiro e os dois filhos mais velhos, de 14 e 11 anos, cuja guarda recuperou há três anos -- as duas meninas mais novas já tinham sido adotadas. A casa atual, construída em parceria pela prefeitura com o governo do estado, tem dois quartos, sala, cozinha e banheiro. "É um verdadeiro palacete em comparação com a favela", diz Luiza, que paga 58 reais por mês de prestação da casa.
O orçamento da família ainda é apertado, mas, nos últimos meses, ganhou um reforço de 102 reais do Bolsa Família, do governo federal. Para garantir a permanência no Bolsa Família, Luiza passou a participar mais atentamente da vida escolar dos filhos -- o benefício é pago somente a famílias que mantêm as crianças na escola e cujo número de faltas não ultrapassa o permitido. As crianças também participam de um programa da prefeitura em que recebem reforço de matemática, português e aula de arte. Luiza não se livrou do círculo de pobreza que a acompanha desde o início de sua vida. Mas ela conquistou dignidade. Incapaz de acompanhar as discussões sobre a produção de petróleo ou de minério de ferro, Luiza conhece bem o valor de sua casa, da escola dos filhos e da renda extra que recebe todo mês. Para ela, Estado é isso.
sábado, 10 de abril de 2010
sexta-feira, 9 de abril de 2010
AULA 2 (Atualidades 2.3)
ICMS: imposto por dentro, cidadão por fora
MÉTODO POUCO TRANSPARENTE DE COBRAR IMPOSTOS ESTÁ PARA SER CONSAGRADO NA CONSTITUIÇÃO
(artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo de 3.9.03, pag. 2, caderno de Economia)
Guilherme Duque Estrada de Moraes(*)
O leitor certamente aprendeu, nos tempos de escola, o cálculo de porcentagens. Aprendeu, por exemplo, que 18% de R$ 1.000,00 são R$ 180,00. Simples, não? Pois pode ser que a conta esteja errada. Pelo menos no que se refere ao cálculo do ICMS.
Ocorre que a legislação do ICMS em vigor considera que o valor do próprio imposto também integra sua base de cálculo. Isto quer dizer que se o imposto estabelecido for de 18% (uma alíquota bastante comum no caso do ICMS), o imposto efetivo sobre um valor líquido de R$ 1.000,00 corresponderá a R$ 219,50, ou seja, quase R$ 40,00 a mais do que se o imposto fosse calculado de forma direta, simples e transparente, como seria desejável. Para se chegar a esse valor é preciso considerar que R$ 1.000,00 correspondem não à base de cálculo, mas sim ao resultado de uma subtração, qual seja a base de cálculo menos o valor do imposto. Dessa forma, R$ 1.000,00 são apenas 82% do valor sobre o qual os 18% devem incidir. Na prática, em uma operação teoricamente taxada com a alíquota de 18% de ICMS, o imposto é de 21,95%. É o cálculo “por dentro”, como dizem os contadores. O que também significa a cobrança do imposto sobre o imposto. É isto mesmo: pagamos ICMS sobre o valor do ICMS.
O pior é que esse método pouco transparente de se cobrar impostos está para ser consagrado na Constituição. A proposta de emenda constitucional ora em exame no Congresso inclui dispositivo segundo o qual o valor do ICMS deve integrar sua própria base de cálculo.
Até há pouco tempo, na maioria dos estados, essa fórmula de cálculo era adotada apenas para as operações no mercado interno. Ante as queixas da indústria local, prejudicada com a vantagem concedida aos produtos importados, o governo passado resolveu corrigir a falta de isonomia. Mas em vez de igualar a forma de cobrança no mercado interno à adotada no caso dos produtos importados, preferiu alterar a Constituição para determinar que nas importações o valor do imposto passasse a ser calculado da mesma forma que nas operações no mercado interno, em que o valor do imposto integra sua base de cálculo. Na prática, aumentou o ICMS das importações e gerou, de lambuja, um aumento na arrecadação dos estados. Tudo em nome do atendimento a um pleito dos próprios contribuintes...
O assunto não é simples e já foi objeto de muita discussão no Judiciário, que acabou acatando tese segundo a qual não é inconstitucional cobrar o ICMS “por dentro”. Mas certamente também não seria inconstitucional nem tecnicamente inviável cobrá-lo “por fora”. Vale a pena lembrar que o IPI não incide sobre si próprio, como também não incide sobre si o IVA, adotado em outros países.
O cálculo do ICMS “por dentro” impede ou pelo menos torna mais difícil que o cidadão comum, consumidor final, fique, ele sim, “por dentro” de quanto está pagando efetivamente de imposto, a não ser que por alguma razão, exija uma nota fiscal completa, com o valor do imposto destacado.
Além disso, o cálculo “por dentro” dificulta a emissão das notas fiscais e a contabilidade das empresas, principalmente as de menor porte, aumentando custos burocráticos.
Em todas as campanhas pela reforma tributária, sempre se disse que é preciso reduzir o número de impostos, taxas e contribuições e tornar simples, desburocratizado e transparente o pagamento de quaisquer tributos. Esse sempre foi um ponto de convergência no tocante às posições dos políticos, do empresariado e de toda a sociedade civil. Por isso, é no mínimo curioso que não estejamos vendo maiores reações ao disposto na PEC 41 com relação à cobrança do imposto sobre o imposto.
As tentativas de se corrigir o problema sempre esbarraram em dificuldades relacionadas com os valores do ICMS já creditados pelas empresas e, sobretudo, com os orçamentos dos estados. Passar a cobrar o imposto “por fora” resultaria em significativa perda de arrecadação. E quanto a isto, não vale a pena iludir-se. Governos não abrem mão de receitas já conquistadas.
Pois este pode ser o momento ideal para se acabar de vez com as discussões sobre o assunto, sem que se precise constitucionalizar norma tão esdrúxula como a que determina a cobrança do imposto sobre o imposto. Seria, além de tudo, um passo na direção de um verdadeiro imposto sobre o valor agregado. Como a própria PEC 41 prevê que serão fixadas novas alíquotas para o ICMS, basta que, ao fixá-las, se leve em conta a mudança de critério. E que se tenha coragem de dizer que a nova alíquota do imposto, a ser calculado “por fora”, corresponde ao que se pagaria, na prática, se o imposto continuasse a ser calculado “por dentro”. É preciso, no entanto, o compromisso de que isto não será utilizado como instrumento para aumentar o imposto efetivo e a carga tributária como um todo. E é conveniente que se insira na Constituição, isto sim, dispositivo determinando expressamente que o valor de qualquer imposto não pode integrar sua base de cálculo, de forma a afastar o risco de que, no futuro, algum governo em busca do aumento de receitas, reinterprete a matéria, mudando novamente a base de cálculo, mas mantendo a alíquota mais alta.
Haverá quem discorde. Para o governo, explicar que um imposto é maior do que se pensa não é tarefa simpática. Mas se queremos mesmo um sistema tributário melhor precisamos enfrentar questões como esta. Unificar a legislação do ICMS será uma conquista, mas simplificá-lo e torná-lo mais transparente também é importante.
(*) Guilherme Duque Estrada de Moraes é advogado.
MÉTODO POUCO TRANSPARENTE DE COBRAR IMPOSTOS ESTÁ PARA SER CONSAGRADO NA CONSTITUIÇÃO
(artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo de 3.9.03, pag. 2, caderno de Economia)
Guilherme Duque Estrada de Moraes(*)
O leitor certamente aprendeu, nos tempos de escola, o cálculo de porcentagens. Aprendeu, por exemplo, que 18% de R$ 1.000,00 são R$ 180,00. Simples, não? Pois pode ser que a conta esteja errada. Pelo menos no que se refere ao cálculo do ICMS.
Ocorre que a legislação do ICMS em vigor considera que o valor do próprio imposto também integra sua base de cálculo. Isto quer dizer que se o imposto estabelecido for de 18% (uma alíquota bastante comum no caso do ICMS), o imposto efetivo sobre um valor líquido de R$ 1.000,00 corresponderá a R$ 219,50, ou seja, quase R$ 40,00 a mais do que se o imposto fosse calculado de forma direta, simples e transparente, como seria desejável. Para se chegar a esse valor é preciso considerar que R$ 1.000,00 correspondem não à base de cálculo, mas sim ao resultado de uma subtração, qual seja a base de cálculo menos o valor do imposto. Dessa forma, R$ 1.000,00 são apenas 82% do valor sobre o qual os 18% devem incidir. Na prática, em uma operação teoricamente taxada com a alíquota de 18% de ICMS, o imposto é de 21,95%. É o cálculo “por dentro”, como dizem os contadores. O que também significa a cobrança do imposto sobre o imposto. É isto mesmo: pagamos ICMS sobre o valor do ICMS.
O pior é que esse método pouco transparente de se cobrar impostos está para ser consagrado na Constituição. A proposta de emenda constitucional ora em exame no Congresso inclui dispositivo segundo o qual o valor do ICMS deve integrar sua própria base de cálculo.
Até há pouco tempo, na maioria dos estados, essa fórmula de cálculo era adotada apenas para as operações no mercado interno. Ante as queixas da indústria local, prejudicada com a vantagem concedida aos produtos importados, o governo passado resolveu corrigir a falta de isonomia. Mas em vez de igualar a forma de cobrança no mercado interno à adotada no caso dos produtos importados, preferiu alterar a Constituição para determinar que nas importações o valor do imposto passasse a ser calculado da mesma forma que nas operações no mercado interno, em que o valor do imposto integra sua base de cálculo. Na prática, aumentou o ICMS das importações e gerou, de lambuja, um aumento na arrecadação dos estados. Tudo em nome do atendimento a um pleito dos próprios contribuintes...
O assunto não é simples e já foi objeto de muita discussão no Judiciário, que acabou acatando tese segundo a qual não é inconstitucional cobrar o ICMS “por dentro”. Mas certamente também não seria inconstitucional nem tecnicamente inviável cobrá-lo “por fora”. Vale a pena lembrar que o IPI não incide sobre si próprio, como também não incide sobre si o IVA, adotado em outros países.
O cálculo do ICMS “por dentro” impede ou pelo menos torna mais difícil que o cidadão comum, consumidor final, fique, ele sim, “por dentro” de quanto está pagando efetivamente de imposto, a não ser que por alguma razão, exija uma nota fiscal completa, com o valor do imposto destacado.
Além disso, o cálculo “por dentro” dificulta a emissão das notas fiscais e a contabilidade das empresas, principalmente as de menor porte, aumentando custos burocráticos.
Em todas as campanhas pela reforma tributária, sempre se disse que é preciso reduzir o número de impostos, taxas e contribuições e tornar simples, desburocratizado e transparente o pagamento de quaisquer tributos. Esse sempre foi um ponto de convergência no tocante às posições dos políticos, do empresariado e de toda a sociedade civil. Por isso, é no mínimo curioso que não estejamos vendo maiores reações ao disposto na PEC 41 com relação à cobrança do imposto sobre o imposto.
As tentativas de se corrigir o problema sempre esbarraram em dificuldades relacionadas com os valores do ICMS já creditados pelas empresas e, sobretudo, com os orçamentos dos estados. Passar a cobrar o imposto “por fora” resultaria em significativa perda de arrecadação. E quanto a isto, não vale a pena iludir-se. Governos não abrem mão de receitas já conquistadas.
Pois este pode ser o momento ideal para se acabar de vez com as discussões sobre o assunto, sem que se precise constitucionalizar norma tão esdrúxula como a que determina a cobrança do imposto sobre o imposto. Seria, além de tudo, um passo na direção de um verdadeiro imposto sobre o valor agregado. Como a própria PEC 41 prevê que serão fixadas novas alíquotas para o ICMS, basta que, ao fixá-las, se leve em conta a mudança de critério. E que se tenha coragem de dizer que a nova alíquota do imposto, a ser calculado “por fora”, corresponde ao que se pagaria, na prática, se o imposto continuasse a ser calculado “por dentro”. É preciso, no entanto, o compromisso de que isto não será utilizado como instrumento para aumentar o imposto efetivo e a carga tributária como um todo. E é conveniente que se insira na Constituição, isto sim, dispositivo determinando expressamente que o valor de qualquer imposto não pode integrar sua base de cálculo, de forma a afastar o risco de que, no futuro, algum governo em busca do aumento de receitas, reinterprete a matéria, mudando novamente a base de cálculo, mas mantendo a alíquota mais alta.
Haverá quem discorde. Para o governo, explicar que um imposto é maior do que se pensa não é tarefa simpática. Mas se queremos mesmo um sistema tributário melhor precisamos enfrentar questões como esta. Unificar a legislação do ICMS será uma conquista, mas simplificá-lo e torná-lo mais transparente também é importante.
(*) Guilherme Duque Estrada de Moraes é advogado.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
AULA 1 (TEORIA 1.1)
AULA 1 - 31/03/2010 - Fundamentos do Estado, das formas e das Funções do Governo
O ESTADO NA ECONOMIA DO SETOR PÚBLICO
É difícil desassociar Estado e economia, pois ambos estam interligados, inseridos em uma mesma plataforma estrutural. Na economia do setor público não é diferente. Daí a necessidade de estudarmos a origem do Estado e suas implicações no setor público.
Quando o homem vive em sociedade e se organiza social, política e economicamente, de imediato ele necessita de uma forma de governo em que Estado possa garantir as liberdades e os direitos sociais. Pois não há liberdades sem uma organização social.
ORIGEM DO ESTADO: Na filosofia, encontramos a origem do Estado em Aristóteles, na sua obra “Política”, nesta o homem é considerado um animal político e para viver em harmonia com os outros necessita da “polis” (do Estado) para a garantia dos seus direitos e deveres. Esse processo origina-se da passagem da organização familiar para aldeias e delas para Polis, o Estado.
O advento do Estado coincide também com o aparecimento propriedade privada, quando os indivíduos percebem que é necessário garantir seus interesses em torno das suas propriedades e da posse dos seus bens.
FORMAS DE GOVERNO: Na história da humanidade podemos presenciamos a Monarquia e República com formas de governo em que Estado esteve presente. Entretanto o crescimento do Estado é decorrente da revolução industrial que o financiou e gerou riqueza, e esta passou a não privilegiar somente os monarcas e aristocratas.
Mas é na República que conseguimos chegar mais próximo da melhor funcionalidade destas liberdades para sociedade. É nela que um grupo de representantes exerce o poder em prol da sociedade através da democracia.
BIBLIOGRAFIA
Capítulo 1 e 2 do livro :
MATIAS PEREIRA, José. Finanças Públicas: A Política Orçamentária no Brasil. 3ª
ed. São Paulo: Ed. Atlas, 2006.

Antes de analisarmos a economia do setor público que é o objeto maior do nosso curso, faz-se necessário entendermos de forma sólida os fundamentos do Estado e as formas e funções do governo. Só assim teremos a possibilidade de entender e opinar de forma ativa nas finanças públicas de nosso país.
É difícil desassociar Estado e economia, pois ambos estam interligados, inseridos em uma mesma plataforma estrutural. Na economia do setor público não é diferente. Daí a necessidade de estudarmos a origem do Estado e suas implicações no setor público.
Quando o homem vive em sociedade e se organiza social, política e economicamente, de imediato ele necessita de uma forma de governo em que Estado possa garantir as liberdades e os direitos sociais. Pois não há liberdades sem uma organização social.
ORIGEM DO ESTADO: Na filosofia, encontramos a origem do Estado em Aristóteles, na sua obra “Política”, nesta o homem é considerado um animal político e para viver em harmonia com os outros necessita da “polis” (do Estado) para a garantia dos seus direitos e deveres. Esse processo origina-se da passagem da organização familiar para aldeias e delas para Polis, o Estado.
O advento do Estado coincide também com o aparecimento propriedade privada, quando os indivíduos percebem que é necessário garantir seus interesses em torno das suas propriedades e da posse dos seus bens.
FORMAS DE GOVERNO: Na história da humanidade podemos presenciamos a Monarquia e República com formas de governo em que Estado esteve presente. Entretanto o crescimento do Estado é decorrente da revolução industrial que o financiou e gerou riqueza, e esta passou a não privilegiar somente os monarcas e aristocratas.
Mas é na República que conseguimos chegar mais próximo da melhor funcionalidade destas liberdades para sociedade. É nela que um grupo de representantes exerce o poder em prol da sociedade através da democracia.
PARTICIPAÇÃO DO ESTADO NA ECONOMIA: Ao longo do fio histórico verificamos profundas modificações na estrutura da economia, política, tecnológica e social. E com o Estado não foi diferente, sobretudo na sua maior ou menor participação na economia. Antes da grande crise de superprodução da década de 1929 o Estado não intervinha na economia, a crise foi uma experiência que forçou o Estado a se tornar um provedor do crescimento econômico, fortalecido nas teorias keynesianas. Desta forma entre as décadas de 1930 a 1960 verificamos um Estado atuante na economia. Porém nas décadas de 1970 e 1980, com advento das ideais liberais do Estado mínimo, criou-se uma crise econômica que acarretou uma elevação da dívida pública e da inflação. Somente na década de 1990, que o Estado retorna como regulador da economia e da estabilidade social. Todo esse período iremos estudar nas aulas seguintes.
PAPEL DO ESTADO E A ECONOMIA DO SETOR PÚBLICO: Voltando para o papel do Estado na economia, como regulador da economia e provedor da estabilidade social, temos como articulador destas funções a atividade financeira do Estado, que não se resume somente em gerar arrecadação para realização dos serviços públicos. A atividade financeira do Estado se desenvolve em 4 áreas afins :
I. Receita Pública (ingresso de recursos nos cofres públicos)
II. Despesa Pública (aplicação dos recursos nos dispêndios do Estado)
III. Orçamento Público (organizar os recursos, como são utilizados os recursos públicos)
IV. Crédito Público (Empréstimos, uma forma de obter receita pública)
IV. a) Exemplo de Crédito Público: a emissão de títulos da dívida pública são negociados no mercado pelo Banco Central do Brasil, através das operações de Open Market. As operações de open-market (em português, operações de mercado aberto) consitem em técnicas de intervenção dos Bancos Centrais nos mercados monetários através da compra e venda de títulos (geralmente são utilizadas obrigações do governo). Através destas operações, os Bancos Centrais conseguem regular a oferta de moeda numa economia e, por essa via, influenciar as taxas de juro praticadas pelos bancos comerciais . Esse mecanismo é realizado em conjunto com a rede bancária e financeira, e é um dos instrumentos de política monetária para controlar a quantidade de moeda em circulação na economia ou para rolagem da dívida pública.
Quando o governo gasta mais do que arrecada, gera-se um déficit público, como acontece nas nossas contas pessoais, temos um déficit e acabamos recorrendo ao crédito, isso também acontece com o governo, que em momento de crise econômica recorre aos empréstimos oriundos da emissão dos títulos da divida pública. Porém quando a divida pública se eleva de maneira insustentável o governo é obrigado a elevar a taxas de juros, que desequilibra as atividades econômicas resultando em uma menor arrecadação de impostos. Sem falar que a elevação da divida pública em relação a PIB torna o país vulnerário as especulações financeiras externas. Isso tudo só agrava cada vez mais o déficit público em um circulo vicioso. E para sair deste cenário negativo na economia, o país necessitará adotar medidas, tais como o combate a inflação e um ajuste fiscal rígido (corte das despesas), prejudicando os serviços públicos e as obras sociais.
Verificaremos todo esse mecanismo de forma mais aprofundada na prática quando formos analisar a crise da década de 1980, a crise da dívida.
PAPEL DO ESTADO E A ECONOMIA DO SETOR PÚBLICO: Voltando para o papel do Estado na economia, como regulador da economia e provedor da estabilidade social, temos como articulador destas funções a atividade financeira do Estado, que não se resume somente em gerar arrecadação para realização dos serviços públicos. A atividade financeira do Estado se desenvolve em 4 áreas afins :
I. Receita Pública (ingresso de recursos nos cofres públicos)
II. Despesa Pública (aplicação dos recursos nos dispêndios do Estado)
III. Orçamento Público (organizar os recursos, como são utilizados os recursos públicos)
IV. Crédito Público (Empréstimos, uma forma de obter receita pública)
IV. a) Exemplo de Crédito Público: a emissão de títulos da dívida pública são negociados no mercado pelo Banco Central do Brasil, através das operações de Open Market. As operações de open-market (em português, operações de mercado aberto) consitem em técnicas de intervenção dos Bancos Centrais nos mercados monetários através da compra e venda de títulos (geralmente são utilizadas obrigações do governo). Através destas operações, os Bancos Centrais conseguem regular a oferta de moeda numa economia e, por essa via, influenciar as taxas de juro praticadas pelos bancos comerciais . Esse mecanismo é realizado em conjunto com a rede bancária e financeira, e é um dos instrumentos de política monetária para controlar a quantidade de moeda em circulação na economia ou para rolagem da dívida pública.
Quando o governo gasta mais do que arrecada, gera-se um déficit público, como acontece nas nossas contas pessoais, temos um déficit e acabamos recorrendo ao crédito, isso também acontece com o governo, que em momento de crise econômica recorre aos empréstimos oriundos da emissão dos títulos da divida pública. Porém quando a divida pública se eleva de maneira insustentável o governo é obrigado a elevar a taxas de juros, que desequilibra as atividades econômicas resultando em uma menor arrecadação de impostos. Sem falar que a elevação da divida pública em relação a PIB torna o país vulnerário as especulações financeiras externas. Isso tudo só agrava cada vez mais o déficit público em um circulo vicioso. E para sair deste cenário negativo na economia, o país necessitará adotar medidas, tais como o combate a inflação e um ajuste fiscal rígido (corte das despesas), prejudicando os serviços públicos e as obras sociais.
Verificaremos todo esse mecanismo de forma mais aprofundada na prática quando formos analisar a crise da década de 1980, a crise da dívida.
Para próxima aula (07/04/2010) vamos conhecer os principais conceitos das finanças públicas. Até lá !
BIBLIOGRAFIA
Capítulo 1 e 2 do livro :
MATIAS PEREIRA, José. Finanças Públicas: A Política Orçamentária no Brasil. 3ª
ed. São Paulo: Ed. Atlas, 2006.
terça-feira, 6 de abril de 2010
AULA 2 (Atualidades 2.2)
APÓS QUATRO MESES, GOVERNO TEM DEFICIT
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi3103201012.htm
Tesouro, BC e Previdência registram saldo negativo de R$ 1,1 bi em fevereiro; arrecadação não cobre despesas no mês
No bimestre, resultado supera o do início de 2009, quando efeito da crise era mais forte; governo nega risco de meta fiscal não ser cumprida
EDUARDO RODRIGUES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Depois de quatro meses com as contas públicas positivas, o governo central (Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social) registrou deficit primário de R$ 1,1 bilhão em fevereiro. Em janeiro, o superavit havia sido de R$ 13,866 bilhão.
Ao contrário do mês anterior, quando o governo contou com um considerável reforço de caixa graças à antecipação de pagamentos de tributos por empresas, em fevereiro a arrecadação não foi suficiente para cobrir o cronograma de despesas, que incluem o pagamento de salários do funcionalismo público, benefícios previdenciários e investimentos.
Mas, apesar de o resultado significar que as gastos no mês superaram as receitas, o desempenho no início de 2010 é bem superior ao do ano passado, quando a crise financeira impediu que a economia do governo para o pagamento dos juros da dívida fosse maior.
No primeiro bimestre de 2009 o superavit foi de apenas R$ 2,9 bilhões, enquanto nos dois primeiros meses deste ano -apesar do deficit de fevereiro- a economia já chega a R$ 12,8 bilhões. A meta para o primeiro quadrimestre de 2010 é de R$ 18 bilhões.
"A análise relevante é a que mostra a tendência do ano, e não o resultado de um mês. O fato de ter havido pagamentos maiores em alguns itens em fevereiro não significa que o mesmo deve se repetir nos próximos meses", afirmou o secretário do Tesouro, Arno Augustin.
Segundo ele, a programação de pagamentos de alguns ministérios e o andamento de obras de infraestrutura variam com frequência e podem ocasionar essas diferenças elevadas de resultados entre dois meses consecutivos.
Augustin disse ainda que o resultado do mês de março pode ser afetado por um forte pagamento de precatórios, que foram postergados no início do ano. No entanto, o secretário não vê riscos para a sustentação fiscal do país em 2010.
No ano passado, com a queda da arrecadação decorrente da crise e a série de desonerações para incentivar a produção industrial e o consumo, o governo precisou recorrer a vários artifícios para conseguir atingir a meta anual de superavit. Além de buscar depósitos judiciais em bancos públicos e turbinar a cobrança de dividendos de estatais, ainda foi preciso abater da conta original o PAC.
Após apresentar o resultado das contas públicas, Augustin revelou que o Tesouro planeja realizar novos lançamentos de títulos da dívida pública no mercado externo em abril, para continuar servindo de referência às emissões privadas.
Ele ainda confirmou as negociações para ampliar os limites de endividamento de vários Estados, incluindo São Paulo.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi3103201012.htm
Tesouro, BC e Previdência registram saldo negativo de R$ 1,1 bi em fevereiro; arrecadação não cobre despesas no mês
No bimestre, resultado supera o do início de 2009, quando efeito da crise era mais forte; governo nega risco de meta fiscal não ser cumprida
EDUARDO RODRIGUES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Depois de quatro meses com as contas públicas positivas, o governo central (Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social) registrou deficit primário de R$ 1,1 bilhão em fevereiro. Em janeiro, o superavit havia sido de R$ 13,866 bilhão.
Ao contrário do mês anterior, quando o governo contou com um considerável reforço de caixa graças à antecipação de pagamentos de tributos por empresas, em fevereiro a arrecadação não foi suficiente para cobrir o cronograma de despesas, que incluem o pagamento de salários do funcionalismo público, benefícios previdenciários e investimentos.
Mas, apesar de o resultado significar que as gastos no mês superaram as receitas, o desempenho no início de 2010 é bem superior ao do ano passado, quando a crise financeira impediu que a economia do governo para o pagamento dos juros da dívida fosse maior.
No primeiro bimestre de 2009 o superavit foi de apenas R$ 2,9 bilhões, enquanto nos dois primeiros meses deste ano -apesar do deficit de fevereiro- a economia já chega a R$ 12,8 bilhões. A meta para o primeiro quadrimestre de 2010 é de R$ 18 bilhões.
"A análise relevante é a que mostra a tendência do ano, e não o resultado de um mês. O fato de ter havido pagamentos maiores em alguns itens em fevereiro não significa que o mesmo deve se repetir nos próximos meses", afirmou o secretário do Tesouro, Arno Augustin.
Segundo ele, a programação de pagamentos de alguns ministérios e o andamento de obras de infraestrutura variam com frequência e podem ocasionar essas diferenças elevadas de resultados entre dois meses consecutivos.
Augustin disse ainda que o resultado do mês de março pode ser afetado por um forte pagamento de precatórios, que foram postergados no início do ano. No entanto, o secretário não vê riscos para a sustentação fiscal do país em 2010.
No ano passado, com a queda da arrecadação decorrente da crise e a série de desonerações para incentivar a produção industrial e o consumo, o governo precisou recorrer a vários artifícios para conseguir atingir a meta anual de superavit. Além de buscar depósitos judiciais em bancos públicos e turbinar a cobrança de dividendos de estatais, ainda foi preciso abater da conta original o PAC.
Após apresentar o resultado das contas públicas, Augustin revelou que o Tesouro planeja realizar novos lançamentos de títulos da dívida pública no mercado externo em abril, para continuar servindo de referência às emissões privadas.
Ele ainda confirmou as negociações para ampliar os limites de endividamento de vários Estados, incluindo São Paulo.
Assinar:
Postagens (Atom)